Bem, primeiro a Terra esfriou. Depois, vieram os dinossauros, o homem, o descobrimento do Brasil,....
Para encurtar a história, em 1983, na Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, quatro rapazes, colegas de terceiro ano do Colégio Vicente de Paulo, decidiram tocar num sarau (uma espécie de festival de música), junto com mais alguns amigos. Os quatro rapazes eram:
Bruno, Sheik, Alvaro e Miguel.
Os quatro e mais alguns amigos decidiram fazer daquela experiência ousada um hábito. Após muitas formações, o grupo ficou reduzido a um trio com Bruno no baixo e voz, Miguel no piano e Sheik no casiotone. Tocando covers de Kid Abelha e Paralamas, receberam do amigo Hebert Viana a sugestão do nome "Biquini Cavadão". Bruno passou o baixo para Sheik, Miguel assumiu totalmente o teclado e Alvaro foi novamente chamado para o grupo desta vez tocando bateria, ao invés de violão como nas outras vezes.
Depois de Alguns meses fizeram Tédio, e esta música foi o chamariz para que Carlos Beni (ex-Kid Abelha, manager/produtor na época) insistisse em gravá-los. A demo, que contou com Hebert na guitarra (gentilmente cedido por Bi & Barone), foi parar na rádio Fluminense FM, berço de várias bandas de rock dos anos 80. O sucesso da Demo, os levou à Polygram para gravar um compacto no começo de 1985. No dia
16 de março desse ano, fazem sua primeira apresentação profissional no
Circo Voador (Rio), junto com outras bandas iniciantes num grande show - "Medidas de Impacto", uma alusão ao que seria o primeiro dia de governo do finado Presidente Tancredo Neves.
Faltava um guitarrista e foi aí que Carlos Coelho entrou na história, aparecendo logo após o segundo show profissional realizado pela banda. Colaborando nas composições e gravando todos os programas de TV, a sua integração foi rápida e perfeita. Era como se ele apenas tivesse faltando no dia de tirar fotos para a capa do compacto...

No meio de 1985, lançam um Mix com Tédio (remix) e No Mundo da Lua, que também chega às paradas de sucesso. No final daquele ano eles gravam o primeiro LP: "Cidades em Torrente". Além dos dois hits iniciais, eles ainda emplacam Timidez, Inseguro de Vida e Múmias. O disco chega a atingir a marca de 60 mil cópias vendidas em fevereiro de 1986. São eleitos a revelação de 1985 e excursionam por quase todo o país.
Em 1987, lançam o LP "A era da Incerteza". Apesar de não ter tantos sucessos quanto o primeiro disco, chegam a marca de 50 mil cópias, embalados por músicas como Ida e Volta e 1/4. O terceiro disco só viria em 1989. Mesmo sendo considerado o mais fraco de todos os discos do Biquini (apenas 25 mil cópias), "Zé" emplaca trés hits nas rádios: Teoria, Meu Reino e Bem Vindo ao Mundo Adulto. Em 1990, o remix de Bem Vindo ao Mundo Adulto, põe o grupo de volta às paradas no Rio. No ano seguinte é a vez de Meu Reino'91 (um lar e Brixton) fazer sucesso alguns meses antes do lançamento do LP "Descivilização". Zé Ninguém dá a partida para uma série de primeiros lugares em várias rádios do Brasil. Em 1992,
Impossível e
Vento Ventania, levam o LP as 70 mil cópias.
Vento Ventania é eleita a música do ano e o Biquini, novamente é consagrado grupo revelação. Outras faixas como, Cai Água Cai Barraco, Arcos e Vesúvio também estouram pelo país.
No começo de 1993 eles participaram do Hollywood Rock abrindo a noite de Red Hot Chilli Peppers e Alice in Chains. No meio do ano, se transferem para a Sony Music e lançam como aperitivo para o novo LP, a regravação de Chove Chuva, de Jorge Ben Jor. No começo de 1994 a Polygram lança "O Melhor do Biquini Cavadão", contendo um resumo dos 9 anos de carreira, enquanto a banda se tranca em uma velha casa para compor o seu novo disco "Agora". Músicas como O Idiota Eletrônico, Sobrancelhas e Porque Você Não Estava Aqui, começam a despontar. Eles fecham o ano regravando
Ilegal, Imoral ou Engordar para o disco "Rei" em homenagem a Roberto Carlos.
Desde o começo sem mudar um integrante, Bruno Sheik, Miguel, Coelho e Alvaro Birita já haviam ultrapassado a marca de 700 shows por quase todo o país (faltando apenas o Piauí e Tocantins).
Os integrantes do Biquini Cavadão foram convidados para uma regressão aos seus primeiros anos de carreira. Utilizando para isso: a capa do compacto "Tédio" (1985) - foto de Maurício Valladares - foto tirada durante um show de lançamento do segundo disco, "A era da Incerteza", no Canecão (Rio de Janeiro/1987) - fotógrafo Marcelo Benzaquém.
Miguel: "Tocar, para mim, era um hobbie. Já estudava música desde os 11 anos. E com 3 já ouvia música, principalmente clássica. Eu era o protótipo do garoto com quem ninguém queria sair. Eu era nerd. A gente tinha uma frase: "Eu gosto muito de você como amigo." Eu estudava na faculdade de Medicina (UFRJ). Tinha que estar lá às 07:30 da manhã para fazer Educação Física. Eu perdia a hora e deixava na mão as pessoas que iam de carona comigo. Cheguei a trancar a faculdade, pensando que esse lance de banda era moda, e que duraria só uns 3 anos. A medicina passou, mas eu continuo admirando, e gostando muito da profissão de médico. A época do começo foi a época de descobrir a boemia. Eu deixei de ser estudante para ser aquele que saia de noite e acordava de tarde. No começo da carreira, a gente queria ter um visual mais diferente. Usávamos umas roupas bem diferentes daquela coisa new wave, rock´n roll. Era uma massagem para o ego. As pessoas já começavam a conhecer a gente. Eu tava preocupado em viver aquele momento, em viver daquilo que eu gostava de fazer."
Coelho: "No começo mesmo, a gente não ligava muito pra carreira. Eu tinha 21 anos e mais cabelo. A banda se encontrava só nos poucos ensaios e nos shows. Nessa época eu comia carne. Virei vegetariano em 1989. Eu não queria nada com os ensaios. Saía todas as noites (ia dormir às 5 da manhã e acordava à uma da tarde), quando acordava ia tomar banho de cachoeira nas Paineiras, na Pedra da Gávea ou no Horto. Isso foi até outubro de 1988, quando peguei hepatite e tive que ficar 3 meses em casa sem sair. Foi bom, eu sosseguei aproveitei o tempo para praticar, para tocar guitarra. No meio do ano de 1989, eu comecei a namorar a aí sosseguei por mais 2 anos e meio."
Bruno: "De 1985 até 1987, o dinheiro que eu ganhava era para comprar discos. Seu eu gostava de 1 cantor ou de uma banda queria comprar todos os discos para conhecer o trabalho de cabo a rabo. Eu tinha um carro, que comprei com meu dinheiro. Chamava ele de "maestro", porque onde parava dava "conSerto". Eu era magrelo que só. Hoje passei da conta. Com o compacto, a gente não acreditava que 'aquilo' que a gente tinha feito havia virado um disco. Um dia antes de assinar 1º contrato, eu liguei para o Beni para dizer que não queria mais. Quando gravamos o disco A era da Incerteza, a escolha desse nome foi uma das mais felizes. A gente vivia incertezas quanto a vida adulta, o amor a carreira. A pergunta era: 'Vale a pena continuar?'. Nós nunca dissemos um para o outro: 'Meu sonho é subir num palco e ...'. E de repente a gente tava num palco tocando para um monte de gente. Era assustador. Se a gente fosse seguir a razão, teríamos parado. A gente seguiu o prazer da coisa. Em 1985, eu andava com o pessoal da faculdade e com o pessoal do Biquini. Na época da foto, eu andava muito com o Miguel e era muito amigo do Tony Platão. Também conhecia legal o pessoal do Uns e Outros."
Birita: "Eu fazia Comunicação - Jornalismo na (UERJ) e morava em Botafogo com meus pais. Eu procurava me dedicar a faculdade, mas o clima lá era menos sério do que no 2º grau. Sai, no fundo, porque achava muito largado. A gente ensaiou na casa da minha mãe durante uma época. Um dia um vizinho maluco disse para o porteiro que ia dar tiro em todo mundo. O começo foi dentro do contexto de Rock Brasil e eu não tinha ideia de que fosse uma coisa duradoura. Tudo era novidade e curtição. Para ter um a ideia, eu nunca tinha andado de avião antes do Biquini. O clima era descompromissado porque a gente tava realizando um sonho que nem tinha sonhado. Foi acontecendo. A gente não tinha nem uma preocupação com o visual. A foto do compacto eu fiz com uma calça do meu pai e com uma camisa de malha. Pode parecer desleixo, mas era só porque a gente não tinha uma expectativa quanto ao sucesso. Só em "Descivilização" que a preocupação com o visual começou a pintar."
Sheik: "No começo meu pai dizia para mim a mesma coisa que o pai do John Lennon dizia para ele: 'Será que isso vai dar certo?'. No início da carreira, eu trabalhava e estudava física (UFRJ), A faculdade era uma droga e foi numa aula que eu fiz
Tédio. Trabalhava na revista "Info" de informática e depois comecei a trabalhar pela revista junto a IBM. Cheguei a fazer uma apresentação numa feira de informática no Riocentro. De terno e gravata e sapato!. Em 1984/1985 eu era meio que empresário do Biquini, marcava show e tudo. Junto a gravadora era mais um Beni, mas eu também participava. A foto que fizemos para o compacto, foi feita em dezembro. Eu tinha 18 anos. Tivemos que entrar no mar, porque o Maurício Valadares mandou. A gente usou blaizer, e Miguel, e eu pegamos emprestado com meu pai. Eu tinha aulas de baixo. A aula de música era chata. A gente ia para os shows, em lugares como Volta Redonda e Macaé de Kombi. Nós cinco, 2 rodies e os instrumentos!".
E viva o Biquini Cavadão!